O Abismo Negro de Sonhos Esquecidos 2
Um blog para recuperar as (boas) coisas do passado mas também para trazer as novidades do presente. Registos no âmbito do Cinema, Teatro, Literatura, Fotografia, Pintura, Desenho...
Autoria: Sandra Almeida (almeida649@hotmail.com)
O comboio de Zhou Yu
Deixo-vos com outro filme que gostei muito e que, por isso mesmo, ter visto só uma vez foi insuficiente:
(China, 2002- Realização de Sun Zhou)
Duas vezes por semana, Zhou Yu (...), uma bela artesã apanha o comboio para a longínqua Chongyang, onde se entrega a uma tórrida relação com Chen Ching (...), o seu poeta e amante. Unidos pela sua paixão, ele encontra em Zhou a sua definitiva musa, enquanto ela acredita que Chen é a sua perfeita alma gémea. Mas acompanhando Zhou na sua longa e solitária viagem de comboio estão dois indivíduos que ameaçam fazer descarrilar o seu idílio romântico: Zhang Qiang (...), um jovem médico desesperadamente obcecado por ela e Xiu (...), uma jovem misteriosa, com uma espantosa semelhança com Zhou e que parece seguir todos os seus passos.
O comboio de Zhou Yu é uma digressão sensual sobre o tempo e a distância, a realidade e a imaginação, e onde a única coisa que é real é o que está no nosso coração.
Filme legendado em português e distribuído por Prisvídeo, SA. Resumo apresentado constante no dvd.
Nosferatu, o Vampiro
Um filme saido recentemente no mercado (em dvd) e que recomendo vivamente. Ei-lo:
(Alemanha, 1922- Realização de F.W. Murnau)Knock, um agente imobiliário, recebe um pedido do conde Orlok para comprar uma casa. Este manda o seu empregado, Huttler, viajar até à terra do conde, a Transilvânia, para concretizar o negócio. Orlok não é mais que Nosferatu, um vampiro que faz tudo para conquistar a bela mulher de Huttler que, segundo ele, tem um belo pescoço.
Versão não autorizada de "Drácula" de Bram Stroker. Para poder fazer este filme, Murnau teve de alterar o nome das personagens para não ser confundido com o original. No entanto, foi processado em tribunal pela viúva de Stroker e este ordenou que todas as cópias do filme fossem destruídas. Felizmente, algumas salvaram-se...
Filme com tradução portuguesa e distribuido por Costa do Castelo Filmes, SA. Resumo apresentado constante no dvd. Nota: O dvd tem uma outra apresentação mas Nosferatu continua lá ;)
Grandes estagnações (em mim)
Tenho grandes estagnações. Não é que, como toda a gente, esteja dias sobre dias para responder num postal à carta urgente que me escreveram. Não é que, como ninguém, adie indefinidamente o fácil que me é útil, ou o útil que me é agradável. Há mais subtileza na minha desinteligência comigo. Estagno na mesma alma. Dá-se em mim uma suspensão da vontade, da emoção, do pensamento, e esta suspensão dura magnos dias; só a vida vegetativa da alma- a palavra, o gesto, o hábito- me exprimem eu para os outros, e através deles, para mim.
Nesses períodos de sombra, sou incapaz de pensar, de sentir, de querer. Não sei escrever mais que algarismos ou riscos. Não sinto, e a morte de quem amasse far-me-ia a impressão de ter sido realizada numa língua estrangeira. Não posso; é como se dormisse e os meus gestos, as minhas palavras, os meus actos certos, não fossem mais que uma respiração periférica, instinto rítmico de um organismo qualquer.
Assim se passam dias sobre dias, nem sei dizer quanto da minha vida, se somasse, se não haveria passado assim. Às vezes ocorre-me que, quando dispo esta paragem de mim, talvez não esteja na nudez que suponho, e haja ainda vestes impalpáveis a cobrir a eterna ausência da minha alma verdadeira; ocorre-me que pensar, sentir, querer também podem ser estagnações, perante um mais íntimo pensar, um sentir mais eu, uma vontade perdida algures no labirinto do que realmente sou.
Seja como for deixo que seja. E ao deus, ou aos deuses, que haja, largo da mão o que sou, conforme a sorte manda e o acaso faz, fiel a um compromisso esquecido.(Bernardo Soares-
Livro do Desassossego. 4ª Edição. Lisboa: Assírio & Alvim, 2003. Fotografia de
José Marafona)
Projécteis pesados
As únicas ilusões são sobre os mortos. Julgas que eles são melhores do que realmente são.
A vida é uma só - obter dinheiro ou reputação e filhos para justificar perante os outros o facto de não te atirares de um prédio abaixo- e a morte faz parte dos vivos, é a 2ª parte como nos filmes. Não penses que os mortos são anjos.
Nem as crianças o são. E por que fazem estas coisas? Fechou duas crianças numa casa e durante três semanas só lhes deu água. Vimos imagens. As crianças quase não tinham nádegas. Já viste crianças assim?
A minha mulher repetia: Por que fazem isto?
Eu lia um livro e não queria ver, mudei de canal.
Leio: "Cerca de 500 a.C os Gregos e os Cartagineses utilizavam máquinas para o lançamento de projécteis pesados".
Na verdade, utilizar-se máquinas para o lançamento de projécteis pesados é bom, como o coração, que é pesado, demasiado pesado, e, em alguns momentos, como era bom atirá-lo para longe. Bem satisfeitos ficaríamos, sem coração, com um buraco no sítio do peso, como em algumas esculturas de santos e de Cristo, com uma gaveta no lugar do coração. Gaveta na qual os velhos guardam jóias de família. Usura e caridade no mesmo espaço para poupar metro quadrado, assim é que é.
A catapulta tem um braço de lançamento que termina numa concha exactamente como uma colher. E é na colher que ponho o coração. Como diz o livro:
"A força propulsora da catapulta resultava da elasticidade das cordas torcidas à volta do extremo do braço de lançamento."
O projéctil é enviado para longe, como se pretende, quando o braço de lançamento embate numa trave que o pára, obrigando-o, assim, a expulsar o que antes segurava. Se não existir algo que trave o braço, o braço anda à volta, em círculos e círculos, e tudo se repete, e nada se expulsa.
Para mandar para longe alguma coisa é necessário primeiro segurar com força nessa coisa, depois efectuar um movimento e projectar o pulso para a frente. É assim que as prostitutas expulsam o coração quando com a boca pintada de bâton chupam o pénis do velho que não conhecem, e a cama tem molas que emitem ruídos (guinchos) ao mesmo tempo que a prostituta chupa o pénis do velho que está sentado e espera, e é assim que a catapulta funciona.
Nos rapazes e raparigas com desgostos amorosos e que são cumprimentados na rua também se usa a mesma técnica, já conhecida dos antigos: uma máquina de guerra. Atirar o coração para longe. A catapulta.
E nos que sobrevivem ao adultério também.
(Gonçalo M. Tavares- Água, cão, cavalo, cabeça. Editorial Caminho, 2006. Fotografia de José Lopes)
"Aqui tens as minhas mãos"
... Mas, naquele instante em que deixara o seu olhar afundar-se no rapaz, sentia-se estremecer, e desse estremecimento crescia, do fundo de si, um fogo misterioso. Um fogo que Beno jamais suspeitaria existir. Qualquer coisa que até àquele momento se conservara, interdita para ele e que, subitamente, tomava forma, comovia, e o fazia estremecer e sucumbir.
Calado, Beno, pegou no copo e bebeu. Depois como alguém que varre, e cola, os pedaços de um objecto quebrado, sentiu todo o seu corpo comprimir-se e ficar como uma peça única, extraordinária, outra vez inteira. Viva.
Nesse mesmo instante, abriu as mãos e estendeu-as ao rapaz, como se acabasse de regressar da sua própria morte.
Sorriu, ao descobrir que a paixão, seja ela qual for, é efémera também, como ele, como o rapaz sem nome ali sentado, como a vida, e tem de ser partilhada como um dom - sem demora!
- Aqui tens as minhas mãos - disse Beno, lentamente - elas estão sujas de outros corpos e de noites sem felicidade, estão turvas porque ninguém as quer há muito tempo. Têm o sarro e o esperma e o cheiro azedo do sangue incrustados nas unhas. E gastaram-se, mas se as quiseres, mesmo assim, por pouco tempo que seja, pertencem-te... e... - ia continuar, mas o rapaz interrompeu-o.
- Como te chamas? E dás-me um cigarro?
- Chamo-me Beno. Queres lume? E tu, como te chamas?
O rapaz acendeu o cigarro com o fósforo que Beno lhe estendia e depois disse:
- Vou guardar as tuas mãos na paixão que tenho por ti, mas não te posso revelar o meu nome, nem precisas de o saber. Chama-me o que quiseres, dá-me um nome para que possamos amarmo-nos. Aquele que tinha perdi-o no caminho até aqui. Pertencia a outra paixão, e já a esqueci. Dá-me tu um nome, para eu poder ficar contigo.
- Se assim o queres, teremos as noites e os dias para nomear a nossa paixão.
- E vais dar-me um nome de planta, de objecto, ou de pássaro?
- Não sei, não sei ainda.
Calaram-se. Beno e o rapaz começavam a estar bêbados. O rapaz encostara o seu corpo ao corpo de Beno. Olhavam-se. O rapaz erguera a mão, aberta, pousando-a com leveza no ombro de Beno.
- Medo de viver? - sussurou o rapaz.
E Beno estremeceu outra vez, mas não disse nada.
A noite vestia-se lentamente de branco. A neve ia estendendo o ligeiro véu sobre a cidade adormecida há muito. Nenhum ruído, tudo estava branco e cintilava.
Beno e o rapaz caminharam, deixando pegadas que segundos depois se apagavam, como se ninguém tivesse alguma vez trilhado aquele caminho. Nevava, e Beno pressentiu que também o rapaz, um dia, se apagaria da sua vida.
Mais tarde, muito mais tarde, talvez se lembrasse das mãos dele sobre as suas, como um ferimento no peito; então desejou que a neve também apagasse esse ferimento ainda distante.
Caminharam, os ombros tocando-se, e, de cada vez que era preciso atravessar uma rua, o rapaz agarrava-se ao braço de Beno. A noite transformara-se num deserto branco, sem um único som, sem o mais pequeno sinal de vida. A cidade dormia a sono solto. Beno sorriu e deu-lhe a mão.
A neve atingira alguns centímetros de espessura e eles deixaram de ouvir o barulho surdo das botas no asfalto. Longe dali, na noite desconhecida de outro bairro, vibrou uma sirene. (...) Entretanto, o silêncio apressara-se a regressar.
Beno metera a chave à porta. O dia rompía, tímido, ou seria apenas a cintilação das luzes da noite libertando-se do coração fresco da neve?
- Senta-te, vou fazer chá para aquecer... - disse Beno, dirigindo-se para a cozinha.
- Beno!
- Sim.
- Vives aqui sozinho?
O rapaz sentara-se na cama e descalçara as botas.
- Porquê? - perguntou Beno, espreitando à porta do quarto.
- Agrada-me este quarto, fico aqui para viver contigo.
Beno voltara à cozinha, deitara água a ferver no bule e esperava que o chá abrisse. Quando regressou ao quarto, o rapaz estava nu, estendido sobre a cama.
Beberam o chá a escaldar e fumaram. O quarto balouçava como um navio, e Beno pôs-se a olhar com minúcia e desejo para o rapaz nu. A pele branca, o cabelo caído para os olhos, escondendo-lhe as pálpebras sonolentas, quase fechadas. Os lábios húmidos de saliva, entreabertos, num início de sorriso. O sexo em repouso, as mãos sobre o peito, as pernas. Outra vez o sexo, os pêlos, os braços e os ombros, a curva do pescoço, os cabelos, o rosto, os olhos fechados, a pele, a pele... Beno não se cansava de olhar. (...)
Beno estava sentado na cama. Por fim, o rapaz apoiou os joelhos nas suas costas e passou-lhe os braços à roda dos ombros. Sentiu todo o seu corpo encostado ao do rapaz, e a sua respiração, e um beijo, no pescoço.
Lentamente, Beno desprendeu-se e, dobrando-se para trás, deitou a cabeça no peito do rapaz. Ouvia-lhe o bater do coração, fechou os olhos e deixou-se ficar, sem se mexer, naquela posição, paralisado e vazio. E, durante um tempo que ele não soube, afastou de si o mundo e todo o pensamento.
A madrugada roçou a janela, clara e fria, misteriosamente branca. Continuava a nevar.
Beno despiu-se. O rapaz puxou-o para si. Beijaram-se e amaram-se sem descanso manhã adiante.

A neve parara de cair, e tudo era silêncio e lassidão, quando desceram à íntima cumplicidade do sono.
(Al Berto-
Lunário. Edição: Assírio & Alvim, 1999. Pinturas de
Raphael Perez)
Romeu e Julieta
Parece que bom como actor mas certamente brilhante como dramaturgo William Shakespeare, de origem inglesa, viveu entre 1564 e 1616. Entre as suas peças conhecidas temos: "Hamlet", "Otelo", "Macbeth", "O Rei Lear", "António e Cleópatra", "Júlio César", "O Mercador de Veneza", "Sonho de uma noite de Verão" e... "Romeu e Julieta".
Pois é, é um excerto de "Romeu e Julieta" que aqui vos apresento, com uma pequena nuance interpretativa reflectida nas fotografias editadas. Claro que sim a idealização do Amor, mas sobretudo, o sacrifício do Amor pela Guerra. O confronto do/ao Amor pelos conflitos, pelas rivalidades, pelas discordâncias, pelos diferentes interesses. A subjugação da Paz. O enquinar da Glória. O império do Sacrifício. Até um dia... até ao dia em que se percebe que as consequências são tão graves que o remédio é mesmo retroceder. Que o remédio é inverter a Ordem. É fazer valer o que realmente eleva.
Mas... leiam... e observem...

Na bela Verona, onde se vai passar este drama, duas famílias, iguais em nobreza, impulsionadas por antigos rancores, fazem com que entre si se desencadeiem novas discórdias, em que o sangue dos cidadãos tingue as mãos dos cidadãos.
Das entranhas fatais destas duas famílias inimigas, e sob funesta estrela, nascem dois amantes, cuja desventura e lamentável ruína há-de enterrar, com a sua morte, a luta dos seus pais. As terríveis peripécias deste fatal amor e a raiva obstinada desses pais, que nada pôde aplacar senão a morte dos filhos, vão ser, durante duas horas, o assunto da nossa representação.
(...)
Jardim de Capuleto
(Entra Romeu)
ROMEU- Só se ri das cicatrizes aquele que nunca sentiu uma ferida. (Julieta aparece à janela) Mas... devagarinho! Qual é a luz que brilha através daquela janela? É o oriente, e Julieta é o Sol. Ergue-te, ó Sol resplandecente, e mata a Lua invejosa, que já está fraca e pálida de dor ao ver que tu, sua sacerdotisa, és muito mais bela do que ela própria. Não queiras mais ser sua sacerdotisa, já que tão invejosa é! As roupagens de vestal são doentias e lívidas, e somente os loucos as usam. Deita-as fora! Esta é a minha dama! Oh, eis o meu amor! Se ela o pudesse saber! O seu olhar é que fala e eu vou responder-lhe... Sou ousado de mais; não é para mim que ela fala. Duas das mais belas estrelas de todo o firmamento, quando têm alguma coisa a fazer, pedem aos olhos dela que brilhem nas suas esferas até que elas voltem. Oh! Se os seus olhos estivessem no firmamento e as estrelas no seu rosto! O esplendor da sua face envergonharia as estrelas do mesmo modo que a luz do dia faria envergonhar uma lâmpada. Se os seus olhos estivessem no Céu, lançariam, através das regiões etéreas, raios de tal esplendor que as aves cantariam, esquecendo que era noite. Vede como ela encosta a face à sua mão. Oh! quem me dera ser a luva dessa mão, para poder tocar a sua face.
JULIETA- Ai de mim!
ROMEU- Está a falar... Oh! continua, anjo resplandecente! Porque esta noite tu brilhas tão esplendorosamente sobre a minha cabeça como um alado mensageiro do Céu perante o olhar extrasiado dos mortais, que escondem a íris nas pálpebras ao inclinarem-se para o contemplar quando ele perpassa por entre as nuvens indolentes e navega no seio do ar.
JULIETA- Oh! Romeu, Romeu! Mas porque és tu Romeu? Renega o teu pai, o teu nome; ou, se o não quiseres fazer, jura apenas que me amas e deixarei eu de ser uma Capuleto.
ROMEU (aparte)- Deverei eu continuar a ouvi-la, ou responder-lhe?
JULIETA- É apenas o teu nome que é meu inimigo; tu és tu mesmo, e não um Montecchio. E que é um Montecchio? Não é mão, nem pé, nem braço, nem rosto, nem qualquer outra parte que pertença a um homem. Oh! Sê qualquer outro nome! O que é que existe num nome? Aquilo a que nós chamamos rosa teria o mesmo perfume embora lhe déssemos outro nome! Assim, Romeu, ainda que não se chamasse Romeu, conservaria a mesma perfeição que agora possui. Romeu, renuncia ao teu nome, e em vez dele, que não faz parte de ti mesmo, apodera-te de mim!
ROMEU- Aceito. Chama-me apenas teu amor, e far-me-ei de novo baptizar. De ora avante nunca mais serei Romeu.
JULIETA- Quem és tu que, assim protegido pela noite, vens surpreender o meu segredo?
ROMEU- Eu não sei que nome hei-de pronunciar para te dizer quem sou. O meu nome, querida santa, eu próprio o odeio, por ser para ti um inimigo. Se eu o tivesse escrito, rasgá-lo-ia.
JULIETA- Os meus ouvidos não escutaram uma centena de palavras pronunciadas por esta voz, e contudo eu reconheço-a. Não és tu Romeu, e Montecchio?
ROMEU- Nem uma coisa nem outra, gentil donzela, se ambas te desagradam.
JULIETA- Dize-me: como vieste tu até aqui e para quê? Os muros do jardim são altos e difíceis de escalar; e este lugar será para ti a morte se algum dos meus parentes te descobre aqui.
ROMEU- Transpus estes muros com as leves asas do amor, porque não são as barreiras de pedra que o podem embaraçar; e o que o amor tem possibilidades de fazer ousa logo tentá-lo! Por isso mesmo, não são os teus parentes que me servirão de obstáculo.
JULIETA- Se eles te vêem, matar-te-ão.
ROMEU- Ai! Há mais perigo nos teus olhos do que em vinte das suas espadas. Basta que me olhes com ternura e ficarei couraçado contra a sua inimizade.
JULIETA- Por nada deste mundo eu queria que te vissem aqui.
ROMEU- O manto da noite oculta-me aos olhos deles. Mas, se tu me não amas, que importa que me encontrem? Seria melhor que o ódio deles pusesse fim à minha vida do que a morte tardasse faltando-me o teu amor.
(...)
(Entra, pelo outro lado do cemitério, FREI LOURENÇO com uma lanterna, alavanca e alvião)
FREI LOURENÇO- S. Francisco me ajude! Quantas vezes é que os meus velhos pés pisaram túmulos durante a noite? Quem está aí?
BALTASAR- Um homem que é vosso amigo e que vos conhece bem.
FREI LOURENÇO-Deus te abençoe. Dize-me cá, amigo, que tocha é aquela que dá inutilmente a sua luz às larvas e aos crânios sem olhos? Se não me engano, arde no mausoléu dos Capuletos.
BALTASAR- É verdade, Reverendo Padre. Está lá o meu amo, de quem vós sois amigo.
FREI LOURENÇO- Quem é ele?
BALTASAR- Romeu.
FREI LOURENÇO- Há quanto tempo está ele lá?
BALTASAR- Há mais de meia hora.
FREI LOURENÇO- Vinde comigo ao mausoléu.
BALTASAR- Não me atrevo, senhor. O meu amo julga que eu me fui embora; ele ameaçou-me de morte em termos assustadores se eu ficasse a espreitá-lo.
FREI LOURENÇO- Fica então, eu vou sozinho. Começo a ter um certo receio. Oxalá não tenha sucedido alguma desgraça.
BALTASAR- Enquanto dormia debaixo deste teixo sonhei que o meu amo se batia com outro homem e que o matou.
FREI LOURENÇO (aproximando-se)- Romeu! Meu Deus, meu Deus! Que sangue é este que mancha a entrada de pedra desta sepultura? Para que estarão aqui neste lugar de paz estas espadas ensanguentadas e sem dono? (Entra no túmulo) Romeu! Oh! como está pálido!... E quem é estoutro? O quê Páris também? E banhado em sangue? Oh! que cruel hora a que foi culpada desta lamentável catástrofe! Oh! ela está a mover-se!...
(Julieta acorda)
JULIETA- Oh, caridoso irmão, onde está o meu senhor? Lembro-me bem em que lugar eu devo estar, e cá estou... Mas onde está Romeu?
(Ouve-se barulho)
FREI LOURENÇO- Ouço um certo ruído. Minha filha, abandonemos este antro de morte, de contágio e de sono contra a natureza. Um poder mais forte do que o nosso se ergueu para contrariar os nossos planos. Vem, vem. Fujamos daqui. O teu marido aí jaz morto nos teus braços; Páris também. Anda, vem comigo, que eu vou meter-te numa comunidade de santas religiosas. Não percas tempo com perguntas, que aí vem a guarda. Vem, vem, minha boa Julieta. (Ouve-se barulho outra vez) Eu não ouso ficar aqui por mais tempo.
JULIETA- Ide, ide vós, porque eu não sairei daqui. (Sai Frei Lourenço) Que é isto? Um frasco tão apertado na mão do meu tão fiel amor? Agora vejo que foi o veneno que tão cedo o levou. Oh! egoísta! para que o bebeste tu todo e não deixaste uma gota amiga que me ajudasse a ir ter contigo? Vou beijar os teus lábios, meu amor; talvez aí encontre um resto de veneno, cujo bálsamo me fará morrer... (Beija-o) Os teus lábios estão ainda quentes. (...) O quê? Barulho?! Então não há tempo a perder. Oh, punhal abençoado! (Agarrando no punhal de Romeu) Eis a tua baínha... (Apunhala-se) Cria ferrugem no meu peito e deixa-me morrer! (Cai sobre o cadáver de Romeu e expira).


PRÍNCIPE- Esta carta confirma as palavras de Frei Lourenço. Romeu conta as peripécias do seu amor... a notícia da morte de Julieta... Diz aqui que comprou o veneno a um pobre boticário e com ele se dirigiu a este sepulcro, para morrer e ficar repousando ao lado de Julieta... Onde é que estão esses inimigos? Capuleto! Montecchio! Vede que maldição pesa sobre o vosso ódio. O Céu encontrou meios de matar as vossas alegrias com o amor... E eu, por ter fechado os olhos aos vossos ódios, perdi dois dos meus parentes: todos fomos bem castigados.
CAPULETO- Oh! meu irmão Montecchio! dá-me a tua mão. Este é o dote da minha filha, pois nada mais posso reclamar.
MONTECCHIO- Mas eu posso dar-te mais. Hei-de mandar erguer, em honra da tua filha, uma estátua de puro ouro. E, enquanto Verona for conhecida por este nome, não haverá imagem alguma a quem se preste maior veneração do que à da leal e fiel Julieta.
CAPULETO- De igual esplendor mandarei eu fazer uma a Romeu, que ficará ao lado da sua esposa. Pobres vítimas da nossa inimizade!
PRÍNCIPE- Sinistra paz traz consigo esta manhã; para nos mostrar a sua dor, o Sol velou o seu rosto. Retiremo-nos daqui para falarmos ainda sobre estes tristes acontecimentos. Uns serão perdoados, outros serão punidos, pois jamais história alguma houve mais dolorosa do que a de Julieta e a do seu Romeu.
(Saem)
(William Shakespeare-
Romeu e Julieta. Primeira e segunda fotografias de
Micha Bar-Am; Terceira, quarta e quinta fotografias de
Thomas Dworzak)
Pedaços de caos
Os homens são uma parte pequena do mundo, e eu não compreendo os homens. Sei o que fazem e as razões imediatas do que fazem, mas saber isso é saber o que está à vista, é não saber nada. Penso: talvez os homens existam e sejam, e talvez para isso não haja qualquer explicação; talvez os homens sejam pedaços de caos sobre a desordem que encerram, e talvez seja isso que os explique.(José Luís Peixoto-
Nenhum Olhar. Edição: Temas e Debates, 2002. Fotografia de
José Marafona)